sábado, julio 30, 2005

COMÉRCIO diz "Até já" aos seus leitores a partir de hoje



PATRÍCIA CARVALHO 


Espera-se que não seja um Adeus, mas apenas um Até Já. Esta é a última edição do COMÉRCIO a sair para as bancas, depois do representante da Prensa Ibérica em Portugal, António Matos, ter tornado pública, ontem, a decisão de suspender o diário portuense, a par com o lisboeta "A Capital". 

O grupo espanhol de media abandona, assim, os negócios no nosso país, alegando graves prejuízos financeiros. Por enquanto, a publicação dos dois diários fica suspensa até que apareça um comprador interessado em reactivar os títulos. A partir de segunda-feira, a empresa começa a negociar individualmente a saída dos trabalhadores. 

O director-geral das publicações da Prensa Ibérica em Portugal, António Matos, chamou todos os trabalhadores do COMÉRCIO ao início da tarde, para lhes comunicar "a notícia que ninguém queria ouvir". 

A publicação do diário mais antigo da imprensa continental fica suspensa a partir de hoje e por tempo indefinido, depois das tentativas de venda realizadas ao longo da semana terem saído goradas. António Matos seguiu depois para Lisboa onde iria comunicar aos funcionários de "A Capital" a mesma notícia. 

Numa carta enviada a todos os funcionários, António Matos explica que "o não aumento visível das vendas e a quebras nas receitas publicitárias têm tido como consequência que a empresa proprietária, New D - Notícias do Douro, Lda., apresente, ao longo dos últimos anos, resultados negativos avultados". Pelas contas da empresa, o prejuízo financeiro "superava um milhão e 200 mil euros no primeiro semestre em curso, tendo chegado a um valor diário superior a seis mil euros, o que significa, nos últimos três anos, um prejuízo global superior a seis milhões de euros". 

De acordo com o director do COMÉRCIO, Rogério Gomes, a Prensa Ibérica recusou a possibilidade de aquisição dos dois títulos em causa por parte de um grupo de cinco quadros da empresa - operação designada por MBO (Management Buyout Operation) -, alegando "haver dúvidas sobre a solvência dessa MBO", disse, numa conferência de imprena, a meio da tarde. 
Depois do anúncio oficial da suspensão do COMÉRCIO foram muitas as manifestações de solidariedade para com os jornalistas e restantes funcionários da empresa. 

Em comunicado, o Sindicato dos Jornalistas (SJ), acusou a Prensa Iberica de "silenciar dois jornais que representam oportunidades irrepetíveis de diversidade informativa", avisando o grupo espanhol que "se algum dia pretender voltar a investir em Portugal [...] enfrentará séria desconfiança quanto aos seus intentos e capacidade para assumir todos os riscos das suas estratégias expsansionistas". 
O SJ diz mesmo que a decisão de suspender o COMÉRCIO e "A Capital" é "uma atitude irresponsável que não honra o Grupo nem inspira confiança" e promete continuar a trabalhar na tentativa de "fazer suspender a decisão da administração". 

Solidariedade 

Também da parte do poder político e da sociedade civil surgiram manifestações de apoio ao COMÉRCIO, desde logo pela boca do presidente da Câmara de Gaia, Luis Filipe Menezes que, à margem de uma inauguração, anunciou estar "disponível" para ajudar, nomeadamentem, através de um "apelo aos presidentes da Junta Metropolitina do Porto para uma reunião nos próximos dias em que se juntem 20 empresários da região de forma a manter o jornal". Menezes disse ainda: 

"É incrível como os agentes políticos e o tecido empresarial do Norte deixam morrer o jornal mais antigo do continente e fico perplexo por não haver um político de esquerda que fale dos 60 trabalhadores do jornal que vão para o desemprego.Temos que salvar o COMÉRCIO porque se ele morre, morre uma parte da cidade e do país." 

Também ao final da tarde, o vereador da CDU, Rui Sá, e o líder da Assembleia Municipal da mesma força política, Artur Ribeiro, passaram pelas instalações do jornal para deixar "um abraço" aos funcionários da casa. A Cooperativa Árvore divulgou um texto, que deverá tornar-se num abaixo-assinado, a favor da continuidade do COMÉRCIO. 

Entretanto, a agência Lusa divulgou, ontem, que o grupo espanhol LB-Brothers Venture Capital pretende negociar, na próxima segunda-feira, a venda de "A Capital". Apesar da suspensão da publicação do diário lisboeta, a partir de hoje, o representante da empresa garantiu que a LP-Brothers "mantém o interesse na compra do título". 

À Lusa, o director de "A Capital", Paulo Narigão Reis, disse estar "surpreso" com a decisão, acrescentando: "Sabíamos que a espada estava sobre nós, mas não pensámos que fosse para já. Fomos apanhados de surpresa pela rapidez da decisão". 
Por enquanto, o COMÉRCIO fica por aqui. Encontramo-nos um dia destes. Até já.